| Juntos na Aldeia e Viagem ao Mundo Indígena |
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| Publicado em Sun 01 May 2005 (1160 leituras internas) |
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São crianças como todas as outras. Mas que merecem o respeito à diferença. Respeito para continuar a viver sob a natureza. E nadar nos rios. Brincar entre árvores. Observar o movimento das estrelas, a cor do céu, o colorido das araras. Pintar o corpo com urucum. E ouvir histórias sobre os sonhos e tradições do seu povo. Foi pensando no futuro dos meninos que integram as 200 diferentes sociedades indígenas que sobrevivem no País, que Luís Donisete Benzi Grupioni, pesquisador do Departamento de Antropologia da USP, está lançando Viagem ao Mundo Indígena e Juntos na Aldeia, pela Berlendis & Vertecchia Editores. Os dois livros soã os primeiros da Coleção Pawana( em língua caribe significa visitante, amigo ou parceiro de trocas). E têm como objetivo aproximar as crianças da cidade ao universo cultural dos índios brasileiros. "Muitas pessoas acreditam, ainda hoje, que eles são algo do passado ou que eles estão desaparecendo e perdendo suas culturas", explica o autor. "Outros imaginam que que só há índios na Amazônia, que todos falam tupi e moram em ocas. Enfim, tem muitas idéias totalmente erradas circulando por aí". Grupioni vem se dedicando ao estudo da cultura indígena há quase dez anos. Tem acompanhado de perto a luta dos bororo, no Mato Grosso; dos zoé, no nordeste do Pará. Desse convívio, surgiu a idéia de escrever histórias sobre a realidade das diversas tribos. "A intenção é apresentar o cotidiano e a vida cerimonial dos índios, para que eles possam tornar-se mais familiares e menos exóticos". Mais familiares, menos exóticos De um galho de aaacute;rvore, o roto gritou: Lá vou eu", e saltou. E foi ele e também um outro que vinha atrás e perdeu o equilíbrio. No rio, brincando e espirrando água para todos os lados, estavam outros garotos da aldeia kamayurá. O dia já amanhecera e o sol aparecia lentamente na linha do horizonte. Sob o olhar sensível de Grupioni, o dia-a -dia de nove diferentes povos flui em umaa linguagem simples,porém poética. "Procurei retratar situações e rituais vividos por crianças e jovens", conta. " Em Viagem ao Mundo Índigena falo sobre os bororo, xikrin, xavante, nambiquara e kadiwéu. E no segundo volume, Juntos na Aldeia, registro cenas dos Kamayurá, zoé, tiriyó, waiãpi." Mal clareara o dia, e a mãe de Piritu já estava peneirando uma massa de mandioca e batata roxa para preparar sakura, uma bebida fermentada que os tiriyó costumam dizer que se parece com a cerveja dos brancos. Nessa época do ano, em dezembro, o sol nasce mais cedo atrás das montanhas e nos campos da fronteira de dois países vizinhos: o Brasil e o Suriname, lá no norte do Pará, onde moram os tiriyó. As brincadeiras da garotada nos rios, o trabalho das mulheres no preparo dos alimentos, os rituais das festas, a beleza da paisagem e o ritmo da natureza resurgem com detalhes. O resultado é realmente uma grande viagem. Todas as histórias foram ilustradas pelos próprios índios. Ao final de cada uma delas, há indicações de livros, vídeos e CDs para que o leitor amplie as informações. As edições são enriquecidas com papel vegetal e os integrantes de cada nação retratada nos textos. Começa a escurecer numa das aldeias dos índios bororo lá no vale do rio São Lourenço, no Mato Grosso. Será noite de lua cheia. O vermelhão do pôr-do-sol, pouco a pouco, dando lugar a um azul pálido anunciando o início da noite. O menininho Ukewái, sua mãe e duas irmãzinhas arrastam para fora de sua casa esteiras trançadas de palha, onde se sentam. Outras famílias também colocam esteiras na frente de suas casas e estão a conversar. O antropólogo diz que norte a sul, de leste a oeste do Brasil, existem aldeias indígenas em quase todos os estados. "São cerca de 200 sociedades indígenas, falando mais de 170 línguas e dialetos conhecidos", explica. "Cada uma delas tem um modo próprio de ser. Elas não são apenas diferentes da nossa sociedade, mas também se diferenciam entre si: nas tradições, nos conhecimentos, na arte, na economia, na história, no jeito de ver o mundo e de ser realcionar. Estima-se que a população indígena totalize mais de 280 mil indivíduos." Recontando a história Com estes livros, Luís Donisete Benzi Grupioni reforça o trabalho que vem desenvolvendo para mostrar a realidade dos índios. E recontar a história que ainda é muito mal ensinada nas escolas. "Muitos professores, quando falam sobre a colonização do Brasil, explicam que os índios não eram afeitos ao trabalho", observa. "Surgiu, então a imagem de que eram preguiçosos. Os historiadores dos livros didáticos esquecem de refletir que os índios, como todas as pessoas normais, não queriam, nem querem ser escravizados. E o pior, muitos professores falam sobre eles com se tivessem parado no tempo adorando deuses, morando em tabas. Trabalha-se com uma imagem falda de índio genérico. As informações que os alunos recebem são deficitárias e preconceituosas." Grupioni esclarece, na apresentação dos livros, o deserespeito que existe com a cultura indígena. Diz, especialmente para as crianças: "Tem gente que não tem consideração com os índios. Acham que eles são atrasados só porque têm um jeito de viver diferente do nosso, de acreditar e explicar as coisas. Outras pessoas acham que o governo garante muitas terras e que eles nada produzem. Poucos sabem que eles trabalham mutio para graantir a sua sobrevivência. O respeito que devemos a estes povos não vem com o fato de eles serem ecológicos e sim de terem cosntituído, enquanto seres humanos, formas diferentes de se organizarem. E é por serem diferentes de nós que devemos respeitá-los". Formado em Ciências Sociais na USP, onde também defendeu sua tese de mestrado em Antropologia Social, Grupioni, 32 anos, tem motnado exposições etnográficas e mostras de fotografias sobre os índios. Organizou o livro Índios no Brasil ( SMC,1992) e A Temática Indígena( MEC, Mari e Unesco, 1995). Atualmente, é pesquisador do Mari- Grupo de Educação Indígena e do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo. Juntos na Aldeia e Viagem ao Mundo Indígena, de Luis Donisete e Benzi Grupioni, ilustrados por fotos e desenhos de crianças e adultos das próprias tribos citadas. Coleção Pawana, Berlendis & Vertecchia Editores. Preço: R$ 16,00 cada volume. Informações pelo fone (011) 853-9583. |
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